junho 16, 2013

Tiros no Pé.

Tivemos a noticia anteontem que António de Macedo tinha publicado no Publico um artigo difamatório do AO.

Estranhamente, o artigo não foi divulgado na blogosfera caturra, o que se percebe, a avaliar pelos tiros no pé e pelas inconsistências que contém.


António de Macedo começa por renegar o valor da classicismo etimológico na medida em que o período clássico da ortografia portuguesa  “se caracterizou por um pedantismo renascentista e depois iluminista, de influência francesa, adoptando uma escrita que procurava reproduzir as transliterações latinas de palavras gregas, sobretudo em certos termos eruditos ou mitológicos, como “philosophia”, “theologia”, “chimera”, “symmetria”, etc.” .

Esta asserção desmancha um dos pilares do desacordismo - a relevância do valor etimológico das consoantes mudas - pelo que, para nós, este extrato já ganhou um lugar na nossa galeria dos melhores trechos desacordistas.


A partir desta perspectiva, António de Macedo perde-se em inconsistências insustentáveis, tanto assim que resolveu ir buscar Camões. Ora, não é por acaso que os desacordistas mais capacitados não trazem Camões para o debate sobre o AO, como vamos ver.

Macedo resolveu dizer (por outras palavras) que já é possível observar n'Os Lusíadas a descaraterização ortográfica imposta pelo etimologização forçada iniciada na segunda metade do séc.16.

Para ilustrar o seu argumento, António de Macedo apresenta alguns exemplos retirados daquele poema épico. Assim, ele aponta “«ninfas», «profeta», «cristalino», «fantasia», «Olimpo», etc., palavras que na posterior fase cultista passaram a escrever-se «nymphas», «propheta», «crystallino», «phantasia», «Olympo» “,  se bem que Camões também tenha usado /nimphas/ e /propheta/ nos Lusíadas, acrescentamos nós.

Acontece que o critério usado na seleção dos exemplos falseia a questão. Repare-se que Macedo omitiu os casos seguintes (entre vários outros possíveis):
- /corruto/, assim pronunciado ao tempo, e que Camões usou a par de /corrupto/, aqui por cedência etimológica;
- /someter/ que Camões usou sempre, porque ao tempo o /b/ etimológico de /submeter/ era mudo e, por isso mesmo, não era usado na ortografia;
 - /aspeito/ que Camões usou sempre em lugar de /aspecto/; esta é uma das aberrações etimologizantes introduzidas ainda no séc.16 e que veio a deformar não só a ortografia da palavra mas também a realização fonética do portuguesíssimo /aspeito/;
- /Antartico/ que Camões escreveu como nós escrevemos hoje em Português (sem /c/ etimológico mudo); na ortografia ante AO90 escrevia-se /AntárCtico/.

Se António de Macedo tivesse trazido também estes exemplos, ele teria concluído algo que está há muito estudado: uma das  características fundamentais da diferenciação e da evolução do Português é a eliminação da generalidade das sequências consonânticas herdadas do Latim.
Portanto, a introdução a partir de meados do séc.16 de consoantes mudas e a sua fixação na ortografia por "pedantismo erudito" (sic) foi um mau serviço prestado à Língua Portuguesa, que lhe desfigurou a ortografia, e, em alguns casos, veio depois desfigurar também a fonética.

O código genético do Português opõe-se às teses desacordistas, coisa que os desacordistas realmente conhecedores da evolução da ortografia do Português sabem, de tal modo que não trazem para o debate a ortografia e pronúncia do séc.16, uma e outra ainda não descaraterizadas pela introdução de consoantes etimológicas mudas.

Resta ainda uma incongruência lógica: todas – rigorosamente todas – as consoantes mudas que escaparam à simplificação ortográfica de 1911 e que foram eliminadas pelo AO90, entraram na ortografia do Português em resultado do tal “pedantismo renascentista e depois iluminista, de influência francesa” (sic), como Macedo lhe chama, e que ele rejeita por ser nefasto à ortografia.

Sendo assim, por que motivo achará Macedo que o uso de /c/ mudo em /accesso/ ou em /victoria/ ou em /occupar/ é um pedantismo ultrapassado, e o uso de /c/ mudo em /actuar/ ou em /exactidão/ ou em /Árctico/ é uma necessidade ortográfica?

O desacordismo não sobrevive ao estudo.
O desacordismo só é sustentável à luz de motivações políticas de Velhos do Restelo.

Sobre as sequências consonânticas no nosso idioma:
"Se a ignorância e a falta de estudo dessem dessem equivalências..."
"Samsung aderiu às vantagens do Português"

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